“A significação normal das palavras em relação aos atos muda segundo os caprichos dos homens”1. Ao descrever as atrocidades que marcaram a Guerra Civil da Córcira, Tucídides dedicou uma parte de suas entradas a uma observação peculiar. Diante de violências ditas como “horrores inimagináveis (…) e outros ainda piores”2, o ateniense jogou luz a um fenômeno puramente semântico. Já nos primórdios de um dos conflitos mais importantes da história humana, em 428 a.C., ocorreu uma clara corrupção da linguagem e a consequente perda de densidade da verdade. 

Ao ressignificar atos e distorcer conceitos para adequá-los a uma realidade cada vez mais sangrenta e distópica, os corcireus buscavam justificação. Diante de massacres e perseguições terríveis, seus perpetradores ainda sentiam a necessidade de amparar suas ações em algum nível narrativo. Líderes partidários dirigiam palavras especiosas a ambas as facções, procurando construir nas massas uma identidade que conferisse aparência de nobreza às atrocidades cometidas contra a outra. Não se lutava apenas pelo poder, mas também pela história que sobreviveria e pela versão da verdade que seria contada à posteridade. No terceiro livro da História da Guerra do Peloponeso, Tucídides descreve o ponto basilar de toda guerra e, por derivação, de toda disputa: conflitos são, essencialmente, embates de narrativas inconciliáveis. 

Na sociedade contemporânea, a despeito da experiência observada no mundo helênico – ou, talvez, por causa dela – a polarização finca suas raízes na construção de identidades coletivas baseadas na narrativa. Uma mulher picha uma estátua usando um batom. Para alguns, uma simples manifestação; para outros, uma abolição violenta do Estado Democrático de Direito. A incongruência entre as formas como um mesmo fato é retratado e a receptividade de diferentes grupos frente cada versão evidencia um aspecto fundamental das relações conflituosas. Existe, em toda forma ou manifestação de polarização, uma busca infindável por coerência interna totalmente alheia à lógica racional.  

Não se trata, em sua natureza, de um fenômeno acidental. O economista vencedor do Prêmio Nobel de 1978, Herbert Simon, ao analisar os processos de tomada de decisão humana, elaborou o conceito da racionalidade limitada. De acordo com Simon, não decidimos com base na lógica perfeita, mas filtramos o mundo pelas lentes da emoção, da memória e dos vieses cognitivos. Na realidade, nossas decisões e, por consequência, nossas ações têm sua concepção em aspectos que, muitas vezes, rejeitam a lógica como princípio. Na era da informação fragmentada, é a narrativa o tecido que conecta um evento a determinadas emoções e desperta no indivíduo o desejo de ser parte de uma coletividade identitária. Afinal, como um ser social, é no semelhante que se encontra o pertencimento necessário para a antagonização. 

Nesse cenário, os vieses modernos encontram amplificação prática. A organização em redes sociais e a curadoria de conteúdo altamente sistematizada de plataformas ecoam as narrativas pós-modernas com precisão. Os algoritmos que entregam a usuários apenas conteúdos com os quais eles já evidenciaram identificação irrestrita contribuem para a construção de uma realidade crítica unidimensional. Tal qual os líderes partidários na Córcira, cria-se uma percepção narrativa única, finamente direcionada para a confirmação constante de crenças, recompensadas com descargas emocionais calibradas. Em última instância, o viés confirmatório, como definido por Kahneman, se torna a lente primária com a qual se enxerga o mundo e a própria identidade. 

Invariavelmente, a certeza inabalável que surge da completa inexistência de qualquer nível de conflito interno se manifesta na forma de uma propensão igualmente inabalável ao conflito externo. Quando o que se acredita molda o que se é, a defesa cega de determinada narrativa ganha o status de sobrevivência. Diante da consumação de uma identidade baseada em crenças marcadas pela racionalidade limitada, o embate narrativo se torna pessoal: um ataque ao que se acredita se traduz num ataque à própria existência individual. Numa realidade marcada por uma dicotomia maniqueísta, na qual a mera existência do adversário constituí uma ameaça à personalidade, a comunicação se transforma num exercício de tradução impossível. 

Com efeito, o embate narrativo reprograma relações, criando segmentações para o agrupamento da causa comum (leia-se, da semelhança rasa na construção identitária) em detrimento de laços inatos e, moralmente, insuperáveis. Não por acaso, Tucídides relata pais matando filhos por divergências políticas, descrevendo, numa constatação que ainda ressoa mais de dois milênios mais tarde, como os laços de parentesco ficavam mais fracos que os laços partidários. A narrativa, quando internalizada como identidade, se mostra capaz de subverter qualquer lógica, lançando o indivíduo num deserto moral munido de apenas uma bússola que aponta constantemente à justificação de sua história. Uma execução à luz do dia num campus universitário se torna algo celebrável, se assim validar um reflexo daquilo que se acredita ser. 

Tal cenário se mostra comum a toda relação conflituosa. A unidimensionalidade perceptiva gerada por narrativas enraizadas traz um desafio ímpar. Quando a lógica dá lugar a racionalidade limitada potencializada por heurísticas baseadas em histórias compartilhadas, a comunicação sofre os impactos de um embate aparentemente insolucionável. Se a percepção da realidade define o ser e o contraditório representa uma ameaça existencial, o remédio e sua formulação dependem da capacidade negocial de desenhar espaços em que ambas as narrativas possam coexistir. 

Em verdade, o que permeia qualquer disputa, seja na stasis da Córcira de 428 a.C., seja hoje nas praças digitais, nas cortes ou nas mesas de negociação não é apenas o presente, mas a memória futura. Conflitos são, fundamentalmente, embates de histórias que se recusam a morrer. A tarefa da negociação contemporânea, como exercício de uma espécie de diplomacia social, é menos impor uma narrativa vencedora do que arquitetar a coexistência das narrativas possíveis.  

Entre tratados internacionais que finalizam guerras e acordos que resolvem conflitos entre sócios numa mesma empresa, é o pragmatismo do reconhecimento de limitações e da desnecessidade de uma única verdade que possibilita o progresso. É nesse espaço estreito, entre a hostilidade e a imaginação, que nasce a verdadeira possibilidade de resolução. 

Referências:  

KAHNEMAN, Daniel. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Tradução de Cássio de Arantes Leite. 1. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012. 608 p. ISBN 978-8539003839. 

 

RAIFFA, Howard. The Art and Science of Negotiation. Cambridge, MA: Belknap Press / Harvard University Press, 1982. 384 p. ISBN 0-674-04813-X. 

 

TUCÍDIDES. História da Guerra do Peloponeso. Tradução do grego de Mário da Gama Kury; prefácio de Hélio Jaguaribe. 4. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo; Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais, 2001. (Clássicos IPRI, 2). ISBN 85-230-0204-9. 

 

WEICK, Karl E. Drop Your Tools: An Allegory for Organizational Studies. Administrative Science Quarterly, vol. 41, no. 2, 1996, pp. 301–13.